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Criatividade e quadrinhos

Lucas Brizola

, 6 min de leitura

Aparentemente todos que estamos envolvidos com o tema de criação e desenvolvimento de roteiros, desenhos e outros assuntos desse gênero, acreditamos sermos os melhores naquilo que fazemos, mas você já parou para pensar se a sua criatividade é o que os quadrinhos precisam hoje?

Falaremos hoje sobre um tema que com certeza já foi alvo de busca de muitas pessoas, a criatividade e a falta dela, o que precisamos para fugir dos famosos clichês e prender o leitor a nossa trama.

10811226_10201901348214228_1777935258_nQuando se começa a discutir sobre criatividade, é como se entrássemos em um universo fantástico, onde tudo é possível, mas que só aqueles que são dignos dela podem acessar esse mundo mágico.

Quando eu comecei a me interessar pela arte dos quadrinhos, demorou muito até conseguir chegar a uma ilustração como essa aqui ao lado (Colorido por Bárbara Bueno), foi algo que precisei reservar muito tempo e dedicação, nesse meio tempo aprendi três princípios básicos que muitas vezes passam batidos pela maioria:

  • Imaginação
  • Inspiração
  • Desenvolvimento

Esses três princípios já fizeram com que muitos roteiristas se perdessem na sua criação, pois antes de colocar no papel, você precisa primeiramente se situar no que realmente você quer.

Podemos obter um exemplo grande disso nas novelas, onde o autor, imaginou a trama, teve a sua inspiração mas o desenvolvimento foi tão precário que com 8 capítulos muitas vezes eles já não tem mais o que escrever, e começa então a famosa encheção de linguiça.

Imaginação 

A imaginação sobre o que pretendemos passar, surge geralmente de forma inesperada, é ela que faz com que as novas propostas surjam, quando fiz minha aula uma das coisas que era usada como exemplo era a pergunta:

Quem descobriu o Brasil?

Automaticamente sua mente já sabe a resposta, mas se deixarmos nossa imaginação fluir, podemos chegar a outros resultados como:

Se os portugueses não tivessem descoberto o Brasil, como estaríamos vivendo hoje?

Isso é imaginação, quantas ideias Homem-Aranha - O Que Aconteceria Se... Gwen Stacy Não Tivesse Morrido-CAPA_PhotoReduktonovas surgiram em suas mentes ao lerem a opção a cima? No mundo dos quadrinhos podemos ver isso com frequência, como nas séries Túnel do Tempo (Elseworld) da DC e O que aconteceria se… (What If…) da Marvel, onde o escritor pensa em situações e atos em que ocorrem acontecimentos não antes planejada para tal personagem.

No Brasil, temos um grande exemplo disso imagesatravés dos nossos super-heróis, pois a força motriz por traz disso foi:

E se os gibis tivessem personagens brasileiros?

E através desse pensamento, surgiram muitos e muitos personagens tupiniquins, como Capitão 7, Judoka, Raio Negro e muitos outro que nós bem conhecemos hoje, o que nos leva ao próximo passo.

Inspiração

0018A inspiração é o resultado de um processo de fusão de ideias geradas em nosso subconsciente, como tentando montar um quebra-cabeça, nossos pensamentos tentam encaixar peças até conseguir o resultado por nós esperado, mas para chegar até lá, você precisa ter um foco central.

0060Como na situação dos personagens brasileiros antes citados e até mesmo de muitos outros super-heróis americanos que vemos no dia-a-dia como leitores, todos tiveram uma inspiração, como podemos até não perceber, mas Batman foi inspirado em Superman, Aquaman no Namor, Homem Grilo no Homem-Aranha… e por aí vai. Mas o caso não é plagio, ou uma simples cópia como muitos gostam de vir argumentar, o caso é que cada um deles teve uma inspiração que levou cada autor a desenvolver seu personagem, mas ao mesmo tempo sem perder sua originalidade, pois como disse antes cada um deles é uma fusão das coisas que você gosta e acredita, a diferença é que todas elas formam uma que você se identifica.

Desenvolvimento

Como um dom, a criatividade pode ser desenvolvida ou reprimida.

Para desenvolve-la é preciso um ambiente que você se sinta a vontade e conheça bem, mas para reprimi-la basta apenas uma palavra chave que você não conheça e surge o famoso bloqueio mental.

Cito como exemplo eu mesmo, recebi um roteiro tempos a traz, para desenvolver sobre um dos meus personagens, na primeira página continha a descrição:

Pag 1 – Visão vindo de fora formando uma boa cena de guerra em um dos quadros

war_92Pode parecer algo bobo para alguns, mas pra mim o fato de falar em uma guerra, me fez gerar um bloqueio mental, ao ponto de eu empacar nessa página e não conseguir seguir em frente, o detalhe é que como o personagem que eu estava falando era urbano, minha mente não se preparou para aquilo e não consegui desenvolver essa cena, me fazendo deixa-la para traz.
O que citei agora, me deixou muito frustrado, ao ponto de eu procurar alguns amigos artistas do Facebook para pedir ajuda e conselhos para quebrar esse bloqueio, falei com caras experientes, pessoas que já ilustram a um bom tempo para grandes empresas, e a resposta que tive foi: isso é normal.

Aqui entra o fato que disse, desenvolvimento! Como que eu iria desenvolver algo que não conheço? Algo que tão pouco tive chance de vivenciar? Gosto de personagens urbanos, tenho um certo conforto em faze-los, pois o que leio e assisto são desse meio, esse foi meu erro, falha que você não pode deixar acontecer no desenvolvimento.

É necessário levar o roteiro ao extremo, não ter medo de ousar, quebrar clichês, as vezes até um apego a um personagem onde você faz tudo para preserva-lo do começo ao fim prejudicam o desenvolvimento da obra, uma falta de astúcia que causa uma limitação que leva o leitor a não gostar do que leu até ali.

Podemos encontrar isso bm15-h1-p1-600x917visivelmente em Batman – A morte da família (Batman – Death of the family), onde podemos apreciar um grande desenrolar de fatos, que realmente é surpreendente, mas que no final traz apenas toda a batfamília reunida em uma grande e bizarra conclusão, que não poderia ser mais previsível, o que foi o  fator das principais criticas que a série sofreu, prometia um final grandioso, mas teve apenas um final com diálogos repetitivos e clichês.

Moral da história, uma trama construída a partir de tensão e suspense não deve ser rompida com saídas fáceis, pois quem não gosta de um final feliz? Assim temos nossos corações aliviados, mas a reunião de clichês para que isso ocorra fere muitas vezes a inteligência do seu leitor, fazendo com que muitas vezes ele nem queira mais acompanhar o seu material.

Concluo dizendo, que todo e qualquer quadrinho para ser genial não deve ter medo de ousar, e principalmente conciliar o três pontos: Imaginação, Inspiração e desenvolvimento, pois sem eles ficaremos limitados e tramas fracas e sem profundidade, totalmente superficiais.

Quantos desenhistas e roteiristas que já se perderam nesse caminho, não importando se é quadrinho, game, filmes, série, mangá… Desenvolva essa técnica, faça dela sua força motriz.
Tenho cada dia mais feito isso com meus personagens, me inspiro em outros conteúdos que gosto, faço da imaginação uma arma para usar em combate e desenvolvo de uma certa forma que o que apresento é apenas meu, não uma mera cópia.

Pegue exemplos de séries televisivas atuais como Arrow, The Flash… Quadrinhos como The Walking Dead e filmes como Transcendência, e verá que seu projeto ficará ainda melhor, tente não fazer como aconteceu nos anos 90, onde todo mundo copiava Jim Lee, mas nenhum era ele, seja original e o sucesso estará em suas mãos.

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2 comentários

  1. Realmente tudo o que foi falado faz sentido, acho que até por isso opto por fatos, desenho e filmes surreais, assim como Salvador Dali, só desta maneira criamos algo novo a partir de coisas que existem e com uma marca nossa pessoal, muito boa a postagem…ah já li uma edição que comprei do Cadu Simões o Homem Grilo e sim lembra muito Homem-Aranha e Chapolin, mais sem dúvidas tem sua própria identidade .

    1. Muito bem falado Danilo.
      As vezes deixamos isso passar batido e nem percebemos como é importante.
      Acho que o heróis “griloso” é o maior exemplo de como uma maneira diferente pode mudar tudo, já vi até pessoas debatendo contra o Cadu de que o Homem Grilo seria uma cópia do Homem Libélula, que é aquele herói de comédia, sendo que o Grilo veio muito antes, seria o Libélula inspirado no Grilo?
      Deixo por conta da imaginação de vocês!

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